Voltar

Uma estátua a Viriato em Viseu

40.665270, -7.911839

Desde o século XVII, Viriato foi associado à Cava, imponente fortificação octogonal em terra batida, apesar da falta de consenso relativamente à cronologia e autoria da sua construção. Por via dessa associação, Viseu foi sendo relacionada com Viriato, sendo habitual desde o século XIX a expressão “terra de Viriato” ou “cidade de Viriato” como referência à cidade. Assim, a comunidade viseense sentiu a necessidade de erguer um monumento ao caudilho lusitano. A imprensa local registou animadas discussões e propostas nesse sentido desde inícios do século XX.
Em 1914 surgiria mesmo uma proposta oficial, da parte de José Coelho, arqueológo e vereador, em sessão de Câmara, a 26 de janeiro de 1914. A proposta de levantar uma estátua a Viriato no interior da Cava seria aprovada mas não realizada nos anos seguintes, apesar de novas propostas no mesmo sentido, da autoria de Almeida Moreira, na qualidade de Vice-Presidente da Comissão Executiva do Município (1919) e de José Joaquim Rodrigues, Presidente da Câmara Municipal de Viseu (1923).
Após a queda da I República, a questão voltou a interessar o município de Viseu em 1929. Na mesma altura, a Comissão de Iniciativa e Turismo de Viseu (órgão local de turismo) manifestou também a intenção de construir um monumento a Viriato no Campo de Viriato e deu conhecimento ao executivo municipal desse projeto. Acabaria por ser decidido que seria a autarquia a liderar o processo, surgindo uma comissão responsável pelo projeto. Em 1936, foi exposto na Feira de S. Mateus um protótipo de um monumento a Viriato, cujo autor foi Manuel de Oliveira, escultor viseense. O monumental protótipo permaneceu no local após a realização da Feira, mantendo viva a ideia da homenagem a Viriato. Em 23 de abril de 1938, o executivo municipal abriu finalmente um concurso público para a construção do monumento a Viriato. Todavia, o concurso seria anulado em 11 de fevereiro de 1939 devido à oferta de uma nova maquete para o monumento por parte de Mariano Benlliure, reputado escultor espanhol, iniciativa intermediada pelo Capitão Almeida Moreira. Nesse momento, a Câmara Municipal de Viseu decidiu também pedir o apoio das autoridades centrais para a concretização do projeto, associando a futura inauguração do monumento às Comemorações do Duplo Centenário de 1940.
O monumento a Viriato em Viseu, da autoria de Mariano Benlliure, um dos ícones mais emblemáticos da cidade, pode ser considerado um lugar de memória. O referido monumento e a figura que comemora inscrevem-se claramente num processo longo de sedimentação de valores e arquétipos que Viriato e o seu tempo foram assumindo em diferentes momentos da história nacional e sob diversos regimes políticos. Geradora de largos consensos sociais, ainda que em choque com os dados da investigação histórica atual, a figura de Viriato tornou-se um arquétipo inscrito na matriz portuguesa e espanhola e geradora de memórias que remontam às próprias narrativas veiculadas em ambiente escolar.
Por outro lado, elevado valor simbólico do Monumento a Viriato tem suscitado uma recorrente representatividade como atração turística e ícone de postais turísticos e inspiração de marcas comerciais, ofuscando tanto o seu contexto histórico-cultural específico (nomeadamente no que respeita às circunstâncias da sua produção e ao seu autor) como a própria Cava de Viriato.

  • - - -

  • - - -

  • - - -