Voltar

D. MIGUEL DA SILVA

(1480-1556) - bispo e mecenas

D. Miguel da Silva, nascido em Évora em 1480 e bispo de Viseu desde 1526, foi um dos grandes nomes do Renascimento português. Tendo seguido a carreira eclesiástica, prosseguiu estudos nas Universidades de Lisboa e de Paris. Nomeado embaixador de D. Manuel I em Roma em 1515, conviveu com as grandes figuras do renascimento e humanismo europeu, granjeando respeito e amizades na Cúria papal e nos círculos culturais italianos.
Regressa a Portugal em 1525, convocado por D. João III que o nomeia seu Escrivão da Puridade, cargo de confiança apropriado a um experimentado diplomata que introduzira a prática das missivas cifradas na diplomacia portuguesa. Em breve assumiria funções eclesiásticas, sendo nomeado bispo de Viseu, funções que acumulou com a tutela do Mosteiro beneditino de Santo Tirso, ao qual pertencia o Couto de S. João da Foz, no Porto.
Começou então um período de renovação urbanística, arquitectónica e artística nas localidades e edifícios sob a sua tutela, com o apoio de Francesco de Cremona, arquiteto italiano que trouxe consigo. Em Viseu, entre outras reformas, mandou construir na Sé aquele que é considerado o primeiro claustro renascentista do País. Renovou o Paço Episcopal do Fontelo e a sua envolvente, dando origem a uma verdadeira quinta de recreio renascentista, com jardim à italiana, lago, bosque; estava criado um local de lazer que impressionou os seus contemporâneos e ainda hoje perdura como local de lazer privilegiado de Viseu. Esta verdadeira corte beirã, criada por D. Miguel da Silva como um reflexo da Roma que conhecera, seria articulada com um ambicioso programa de monumentalização da Foz do Douro de que restam hoje o Farol-Capela de S. Miguel-o-Anjo e os restos do seu Paço e Igreja renascentista no Forte de S. João da Foz. Para além do claro simbolismo político e religioso, estava obviamente em causa a valorização da área como estratégico porto fluvial e marítimo. Entre outras questões, a perspetiva da nomeação de D. Miguel da Silva como Cardeal não era do agrado e interesse político de D. João III. A conflitualidade entre o rei e o bispo cresceu e este teve que fugir de forma apressada para a Roma, onde morreu cardeal, respeitado pela Cúria mas proscrito em Portugal.
Os historiadores reconhecem em D. Miguel da Silva o verdadeiro introdutor da linguagem renascentista na arquitetura portuguesa. Para os europeus do seu tempo, a personalidade e cultura de D. Miguel da Silva faziam dele o perfeito cortesão, como atesta a dedicatória de Baltasar Castiglione na conhecida obra Il Perfetto Cortegiano (1528).